ver lonjuras

Trabalho de Isaura Pena, 2015.

Percebi na abertura da exposição que falava com entusiasmo de Ver Lonjuras de Isaura Pena sem que nunca tivesse feito perguntas à artista sobre a obra. Falava sobre as escolhas íntimas, da decisão entre fazer ou não fazer, deixar ou não deixar, adequar ou inadequar. Marcamos então uma conversa e como resultante dela escrevo esta reflexão.

Trata-se de uma instalação com material achado no próprio Colégio das Artes: cadeiras antigas de madeira, desenhos anônimos, caixas de papelão, revistas antigas etc. Trata-se também de uma obra que remete ao equilíbrio, à medida das coisas e como elas “encaixam-se” para formar um todo – como descreve Isaura.

Via eu o que Isaura via?

A artista não começou a obra a partir de uma imagem mental fixa. Não nasceu de um plano ou um desenho feito previamente. Tampouco vinha de uma posição de querer dizer, ensinar ou demonstrar algo. Surgiu da atividade experimental de buscar um encaixe, no lado de fora, para fragmentos de percepção, do lado de dentro. No processo de buscar o encaixe, decisões foram tomadas constantemente, um mecanismo quase digital de reconhecer ou não reconhecer, e de articular fragmentos de percepção a outros. Aos poucos, para a materialização “mágica” da obra, associou esse lugar interno ao que estava disponível no mundo de fora: papel e cadeira.

O ponto de partida foi das cadeiras antigas, que evocaram uma voz da memória: “o júri fica acima das nossas cabeças”, descrevendo a defesa de doutoramento, na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra. “Então só sabia que as cadeiras deveriam estar acima da minha cabeça” – diz Isaura sobre essa primeiríssima decisão. Dentro da imensidão de outras escolhas possíveis, resgatou, em seguida, a lembrança de que havia um “gabinete de coisas esquecidas” e “uma coleção de desenhos anônimos”, decidiu investigá-los, motivada por uma paixão de longo tempo pelo papel, pra lá de 30 anos. Outras decisões foram sendo feitas durante as semanas que seguiram.

“Fica tudo guardado na minha cabeça. Fica tudo arquivado, aí um dia…” Descreve Isaura.

Ao trabalhar dessa forma, a obra final surpreendeu a própria artista. Como se no lado de fora materializara-se um todo, que não teve espaço para ser construído no lado de dentro. O método de trabalho vem de uma matemática íntima de medidas, verificação da forma, agrupamento, posicionamento, estruturas, propriedades, resultantes etc.

Da obra finalizada criou-se o título, Ver Lonjuras. No título da obra criou-se uma unidade de medida de saudade, a que Isaura sente de sua casa no Brasil, de sua família: a lonjura.

É a lonjura uma unidade de medida do tempo da ausência?

É a lonjura uma unidade de medida da distância física?

É a lonjura uma medida de amor?

 

Ver Lonjuras, Instalação, 2015, de Isaura Pena.

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